Cannabis em Foco : As barreiras políticas e a cannabis medicinal

Por Marna Eliana Sakalem
Por muito tempo, uma questão principal rondou o uso medicinal da cannabis: “há evidência científica suficiente para embasar seu uso?”. Um artigo¹ publicado em setembro, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe, propõe uma mudança importante nesse debate. Segundo os autores, o principal obstáculo para transformar pesquisas em tratamentos já não está mais na falta de compreensão biológica, mas nas barreiras regulatórias, econômicas e sociais que dificultam os estudos.
A caracterização molecular dos componentes da cannabis começou nos anos 1960, com a identificação do THC, principal composto psicoativo da planta. Entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, foram identificados os receptores CB1 e CB2 e os ligantes endógenos que formam o sistema endocanabinoide, evidenciando sua complexidade biológica.
Entretanto, esse desenvolvimento ocorreu paralelamente à proibição global. Nos Estados Unidos, a classificação da planta como substância de alto controle federal em 1970 dificultou o acesso a materiais padronizados, aumentou a burocracia e encareceu os estudos clínicos. Mesmo onde o uso medicinal foi legalizado, persistem entraves para obter licenças, importar ou adquirir produtos certificados e encontrar fornecedores estáveis. Assim, muitos estudos recorrem a pesquisas observacionais, conhecidas como “evidências do mundo real”.
Embora mostrem a prática cotidiana, esses dados não substituem os ensaios clínicos randomizados, essenciais para comparar grupos, controlar variáveis e avaliar com precisão a eficácia e os efeitos adversos.
Há ainda uma falta de padronização dos produtos. A concentração de THC e CBD varia entre lotes e muitas vezes diverge do rótulo, comprometendo a reprodução dos experimentos e gerando efeitos imprevisíveis.
Soma-se a isso o estigma social e a hesitação clínica: muitos médicos relatam insegurança para prescrever devido à carência de formação e protocolos claros. Pacientes que utilizam cannabis medicinal podem sofrer julgamentos durante consultas e deixar de informar seu uso aos profissionais de saúde. Essa omissão pode aumentar o risco de interações medicamentosas não identificadas. Médicos e farmacêuticos frequentemente relatam insegurança para prescrever canabinoides, devido à falta de treinamento, à incerteza sobre doses e à ausência de protocolos claros.
Com isso, há um ciclo ininterrupto: a falta de formação gera insegurança; a insegurança reduz a prescrição e o registro dos casos; a escassez de dados reforça a ideia de que a cannabis seria uma terapia “sem comprovação”. Para avançar em terapias baseadas em evidências, é necessário exigir o mesmo rigor científico aplicado a qualquer outra classe terapêutica, reconhecendo que, historicamente, a produção desse conhecimento vem sendo atrasada por políticas proibicionistas, falta de financiamento público, ausência de padronização e estigma profissional. Mais do que perguntar se “a ciência existe”, talvez seja necessário perguntar: o que ainda está impedindo que ela seja plenamente realizada?
Referência
- Souza, J. A.; et al. 2026. The Endocannabinoid System is No Longer the Limiting Factor: Why Policy and Stigma Continue to Delay Cannabinoid-Based Medicine. Clinical…
therapeutics, v. 26, p. 00317-6.
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